27 de set de 2012

Especialistas Apontam Desafios do Parto Humanizado no Brasil

Mulher grávida observando o mar. (Photos.com)

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O Brasil possui maior taxa de cesarianas no mundo, segundo a UNICEF. O retorno ao parto normal e à humanização do parto é um processo que vem ganhando força, embora apresente limitações. Despreparo de profissionais, conveniência apresentada pela cirurgia, medo da dor são alguns dos fatores que direcionam a escolha para cesárea ao invés do parto normal, aponta obstetriz. 

A UNICEF registrou no Relatório da Situação Mundial da Infância de 2011 que o Brasil tem a maior taxa de cesarianas do mundo. No período de 2002 a 2009, a taxa de operações cesarianas registrada em nosso país foi de 44 %. Em 2010, este valor subiu para 52 %. Outros 12 países registraram taxas acima de 30 % (Tabela), segundo o relatório. 

Na rede privada, no Brasil, o índice de partos cesáreos chega a 82 % e na rede pública, 37 %, segundo o Ministério da Saúde. 

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa ideal de cesáreas deve ficar em torno de 15 %, já que a cirurgia só é indicada em casos emergenciais e que põe em risco a gestante e o bebê. 

Muitos são os fatores que estão por trás da decisão da escolha da cesariana ao invés do parto normal. A obstetra, Cláudia de Azevedo Aguiar, doutoranda na Faculdade de Saúde Pública (FSP), da Universidade de São Paulo (USP), explica que a opção pela cesárea reflete a cultura brasileira e mudanças que vêm ocorrendo há décadas no país. 

“Um país que supervaloriza as intervenções, a hospitalização, a medicalização em mulheres e bebês saudáveis, não poderia ocupar posição diferente no ranking mundial de número de cesarianas”, disse. 

Os cursos de formação de obstetrizes no Brasil foram extintos em 1970. A formação de obstetrizes passou a ser responsabilidade exclusiva das escolas de enfermagem no Brasil, enquanto especialização. Atualmente, políticas públicas têm incentivado a redução de cesáreas e isso inclui o ressurgimento de cursos de graduação de obstetrizes, segundo site do curso de Obstetrícia da USP.

Países com taxa de cesarianas acima de 30 %. (Fonte: UNICEF)




Cláudia cita que a cesariana tornou-se um “bem de consumo” em algumas camadas da população brasileira. “Os hospitais e os médicos veem esse procedimento como algo absolutamente rentável”, disse. 











Com base nesta lógica, fatores não clínicos imperam na decisão à cesariana. “A conveniência do médico, como horário agendado, não atrapalhando outras atividades e a conveniência dos familiares, em que muitas mães, por exemplo, preferem marcar a cesariana no sábado, para que possam ser visitadas pelos familiares no domingo” afirma Cláudia. 

Outros fatores como o medo da dor no parto normal e a imprevisibilidade do início do trabalho de parto também norteiam a opção pela cesariana. 

A especialista aponta que a noção de que as cesáreas são seguras é falsa. “A cesariana não é um tipo de parto, é uma cirurgia. Ela salva vidas, quando bem indicada e, como qualquer cirurgia emergencial e de grande porte, deve continuar disponível às mães e aos bebês que dela precisarem. No entanto, seu uso indiscriminado reduz significantemente seu potencial protetor”, disse. 

A cesariana pode representar riscos de mortalidade para bebê e a mãe. O Ministério da Saúde (MS) indica que a parturiente que escolhe dar à luz por cesariana tem risco de vida seis vezes maior em relação àquela que opta pelo parto normal. A cesariana também aumenta as chances de a mãe contrair uma infecção ou ter uma hemorragia e quadruplica os riscos de o bebê ir para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Quando a criança nasce normalmente, as chances de ela ser internada são de 3 %, contra 12 % do nascimento cirúrgico, informa o MS. 

As ‘cesárias eletivas’, onde se agenda uma cirurgia para o nascimento do bebê, podem aumentar a probabilidade de problemas de saúde da criança, já que o feto pode não estar totalmente pronto, segundo o MS. Pesquisas da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), indicam que crianças que nascem com 37 ou 38 semanas têm 120 vezes mais chances de possuir problemas respiratórios em relação àqueles com 39 semanas. 

Um movimento está ganhando força atualmente. A especialista aponta a retomada da fisiologia do nascimento por meio de campanhas do MS e outros órgãos; a criação e reciclagem de algumas escolas, como é o caso do curso de Obstetrícia da USP, fundado em 2005, e passeatas de ativistas e algumas entidades. “Mas, ainda se trata de um movimento contra hegemônico”, afirma a obstetriz. 

Ela aponta que serviços de saúde, tais como hospitais, unidades básicas de saúde e maternidades, ainda estão pouco preparados para fazer com que essa mudança ocorra. “Além disso, os serviços de pré-natal não preparam a mulher para vivenciarem o trabalho de parto e o parto sem temor. Tudo isto reafirma a dificuldade em fazer com que o processo de retorno do parto normal saia do plano da ideologia”, afirma. 

Outro desafio apontado pela especialista é voltado às restrições e proibições do conselho de classe da categoria média. Em geral, médicos cuidam de emergências e entendem a gestação, o parto e pós-parto como algo potencialmente arriscado, e por isso, a presença do médico e a hospitalização no momento do parto acabam sendo considerados como imprescindíveis, mesmo nos casos em que mãe e bebê estão absolutamente saudáveis – isto está errado, aponta a obstetriz. 

Uma fonte de complicações no parto, segundo a especialista, é a própria “cascata de intervenções” que a mulher é submetida dentro do hospital. O uso indiscriminado da ocitocinahormônio é um deles. “Ao contrário do que se propõe, é utilizado para acelerar o trabalho de parto, trazendo desconforto e outros efeitos deletérios à mãe e bebê”, afirma. 

Na opinião da especialista, obstetrizes, parteiras e enfermeiras obstétricas são formadas para lidarem com a fisiologia do parto e nascimento e, por isso estão mais aptas “a respeitar a fisiologia, os desejos e direitos da mulher, bebês e familiares, e oferecer uma assistência baseada em evidências científicas, com toda a segurança necessária”, conclui. 

Cláudia de Azevedo Aguiar é obstetriz e doutoranda na Faculdade de Saúde Pública (FSP) na Universidade de São Paulo. Foi autora da dissertação de mestrado “Práticas obstétricas e a questão das cesarianas intraparto na rede pública de saúde de São Paulo”.


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